12 abril, 2017

A Coluna Partida de Frida Kahlo


Artista: Frida Kahlo
Tela: Coluna Partida
Ano de criação: 1944
Gênero: Autorretrato
Materiais: tinta a óleo, tela e pincéis
Períodos: Realismo Mágico, Surrealismo, Arte Moderna entre outros.
Inspiração: ?!…



Obviamente surgiu pela observação de Frida sobre a própria coluna que de fato era partida, presente em seu corpo que experimentou precocemente muitas transformações físicas um tanto dolorosas, a começar pelos seus seis anos, quando contraiu poliomielite a deixando por muitos meses em um leito. Uma de suas pernas e o pé foram prejudicados, por isso seus passos eram mancos. Frida desde muito cedo vivenciou uma longa via crucis de 35 cirurgias, diversas sequelas como paralisia, atrofias, fraturas, aleijões e gangrena em uma das pernas. Necessitou de medicamentos diversos e ainda assim digeria bebida alcoólica para aliviar um pouco suas dores crônicas. Do uso de uma cadeira de rodas, logo passou a ficar deitada em uma cama de casal permanentemente, mesmo assim, ela não se impediu de continuar avançando, pois a mesma cama a conduziu à primeira exposição de suas obras de Arte.

“E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo.”
Talvez ainda encontremos em nossa sociedade alguns portadores de deficiência que olham para si encontrando apenas um conjunto de mazelas em suas limitações e às vezes até absurdamente as usam como motivos de lamentos, e autopiedade. Amputando infelizmente um dos mais poderosos fôlegos de vida que existe para nos erguer: os sonhos que não devem ser esquecidos ou deletados.
“(…) uma cicatriz nunca é feia. (…) temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. (…) uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: ‘Eu sobrevivi’.”Pequena Abelha, Chris Cleave.

Gostaria que não fosse real, mas até mesmo alguns que estão de fora de nossa militante realidade de corpos paralisados, nos observam pelo selo do preconceito e da “peninha” porque fazem uma leitura errônea de nós, prendendo um olhar que só é capaz de avaliar unicamente o externo da vida de quem é deficiente. Eu acredito e, obviamente também Frida acreditava, que em nossa existência, de um portador de deficiência física, a inspiração nunca terá fim! Porque nossa verdade vivida e sentida nos faz naturalmente levantarmos uma bandeira diferente de todas as outras que conheço, mesmo que alguns insistam em não observar, mas nela está estampada a beleza que é única e torta. Há também os sinais de algumas cicatrizes que são nossas incomparáveis tatuagens, produzidas por um inesperado artista plástico surgido de alguns fatos que enfrentamos, pois nossos corpos foram visitados por uma realidade que deixou marcas não só no físico, mas também em nossas mentes para que venhamos nunca esquecer quem passamos a ser e a viver.



Conhecendo um pouco da vida, dos pensamentos e das obras de Frida Kahlo, posso dizer que o seu corpo e as suas experiências sempre foram um riquíssimo laboratório desde o início da carreira daquela que seria uma grande artista plástica, mas que não almejava tal reconhecimento. Suas experiências fisicamente traumáticas e as superações ininterruptas eram usadas como inspirações por seus próprios olhos e também como a melhor forma encontrada para descarregar todas as suas reflexões diárias, porque o seu corpo, a sua dor e a sua história eram o seu diário pincelado e escrito com tintas através de vários elementos comuns e presentes em seu dia a dia. Essa rotina foi simbolicamente transportada para várias telas-diário durante toda a sua existência. Concluo mais uma vez que o que há em nós é o suficiente para vivermos literalmente uma infindável exposição de Arte, exposição de longos capítulos de vida constantemente, onde nos reconhecemos como artistas, desenhistas, pintores e escultores criando peças fantásticas por meio de nossas lutas, vitórias e derrotas. Para quê, então, buscar no que está do lado de fora? Para Frida bastou somente fechar seus olhos e encontrar o necessário no interno e externo de si. Ali onde havia sempre um leque de informações visivelmente transmitidas por sua mente inquietante.



Vemos em suas telas a presença de sua família, seu grande amor Diego Rivera, seu médico, sua cultura tão reverenciada e até seus animais de estimação, mas, o que de fato se encontra em seus melhores trabalhos, dos quais existem 55 autorretratos admirados, aplaudidos e comentados, é unicamente a presença de sua essência, seu cotidiano de uma história marcada com fatos sofridos visceralmente, seu autoconhecimento e a angústia de quem não conseguiu realizar um dos mais desejados sonhos, o de carregar em seu ventre uma tela que por algumas vezes foi planejada, aguardada, iniciada, mas nunca concluída, que era uma de suas maiores aspirações: ser mãe.

“Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.

Não tenho conhecimento sobre todas as leituras reflexivas que outros críticos de arte tiveram a partir da observação da tela Coluna Partida, mas, é claro, tenho minha visão pessoal e positiva apesar de perceber e sentir na pele o que há por trás das lágrimas nitidamente pintadas acima do tom da pele, dos pregos que seguem um caminho da cabeça até todo o seu corpo, do que parece ser um deserto ondulante e árido ao seu redor, do colete mostrando fragilidade e inutilidade ao tentar segurar e unir seu tronco com as peles e carnes rasgadas deixando amostra uma imensa lacuna ao redor da coluna partida, com vários rachados desde o seu pescoço…É uma aflição forte e nítida… Há angústia em seu semblante. Frida deixou em seu diário o quanto a dor e a morte lhe cercavam e traziam sofrimentos… Mas, mesmo com todos essas sinalizações tristes e sufocantes, sempre encontrei nessa tela uma grande motivação em viver, tenho respostas e forças sobre-humana em prosseguir meu caminho, acreditando e investindo em meus sonhos, independente do que sinto fisgar muitas vezes em minha poética epiderme. Porque, assim como foi com ela, comigo não é diferente, pois posso enxergar além do que vejo. Frida sempre enxergou o que havia além da visão física de sua coluna partida. Frida era e é do México! Frida também era e é do mundo!

O que está além da dor e da morte na espetacular obra Coluna Partida, é encontrada na presença do céu estar azul daquele horizonte convidativo, onde algo parecido com o mar acima das dunas áridas, passam a impressão de que ali habita a esperança. Seus seios expostos sem nenhum constrangimento, revelam a mulher livre e conhecedora de seus desejos mais íntimos. Em seu olhar, apesar da carga de tristeza, não se encontra prostrado, mas direcionado para frente, para o futuro ou como olhando diretamente em nossos olhos a declarar que apesar de tudo, a vida nos convida e oferece momentos curtos e plenos de alegria…
“…a tragédia é o mais ridículo que há… nada vale mais do que a risada…”
Por último, mas nunca será menos importante, vemos seu corpo ferido com as pontas daqueles pregos, sua carne está aberta desde seu pescoço com uma coluna rachada e partida, porém, sempre expôs sem receio sua bravura, por ser uma mulher além do seu tempo, por isso, também esteve sempre além das aflições, dos traumas e dos obstáculos. Ela estava na tela e na vida sempre de pé triunfante e disposta a lutar, ainda que viesse a perder… e só perdeu mesmo para a morte.. mas ainda assim… nos deixou um recado: “Espero a partida com alegria…e espero nunca mais voltar…”


Este artigo, de minha autoria, foi publicado originalmente no blog Genialmente Louco.

2 comentários

  1. Frida é um simbolo da garra, da genialidade, da feminilidade
    sempre uma artista indagadora e instigadora
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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