07 abril, 2017

O Amour pelos Olhos de Michael Haneke


Fonte de imagem: Google
"Uma vez li num livro que o amor não existe para nos fazer felizes, mas para demonstrar o quanto é grande a nossa capacidade de suportar a dor."
Alessandro D’avenia, Branca como a Neve,Vermelha como o Sangue



Até que a morte os separe”... Haverá no amor, terrivelmente banalizado, algo que dê suporte para enfrentar as dores da separação causada pela morte? Eu não sei, mas uma pequena frase da canção de Léo Jayme que diz: “Amor principio de tudo...” ficou sinalizando em minha mente durante as duas horas e poucos minutos em que acompanhei o filme Amour (2012), pela visão do diretor que tira o telespectador de sua zona de conforto após conhecer suas criações. Segundo a opinião de alguns críticos, os filmes desse cineasta e também roteirista, são bombas relógios preparadas para retirar a passividade que temos diante das mazelas e segredos que insistentemente não damos atenção porque são incômodos que não queremos enfrentar, basta apenas saber que eles existem. Com um enredo simples, maquiagem e vestuário básicos, conversas tensas e tendo praticamente como único cenário um grande e silencioso apartamento, afirmo que ninguém realmente conseguirá continuar a ser o mesmo após conhecer a história do casal de músicos aposentados: Georges e Anne.


Então, quem é esse homem? Ele é Michael Haneke, austríaco, 74 anos com formação em psicologia, filosofia e ciência teatrais na Universidade de Viena. É chamado por alguns de “o artista do mal estar”. O que ele tem provocado de forma negativa em um significativo número de cinéfilos, em outros como eu, por exemplo, tem despertado grandes transformações à flor da pele, pois encontrei naquelas cenas, confrontos que me conscientizaram visceralmente sobre as fragilidades que existem em nós e foram representados por aqueles personagens que vestiram um pouco das muitas histórias verdadeiras, por isso então, mais uma vez a Arte imita a vida.

“A TV nunca pode ser uma forma de arte, porque ela atende às expectativas do público.”
Michael Haneke

Amour e Haneke surgiram em minha vida após a experiência vivida no falecimento do meu pai. Percebi então que aquela história estava muito além da impressão de que foi baseada em fatos reais, pois Haneke convida a todos, ainda que de forma brutal, a experimentar a junção entre o tempo real e a ficção. Suas ideias nunca são iguais e sempre chocam todo aquele que consegue assistir, porque em nenhum outro filme é possível encontrar tais inspirações. No entanto, algumas pessoas rejeitam reviver novamente certos abalos emocionais e outras fazem uso exatamente das palavras que o personagem Georges (Louis Trintignant) responde ao desespero da filha que quer saber o estado em que se encontra sua mãe, após o segundo AVC: "Não há mérito em mostrar tudo isso”...
É fato que muitos pensam assim, pois que apreciação há em pôr os olhos em uma pessoa definhando lentamente? Perdendo a noção de quem é e o que fez... Que não compreende mais o que está escrito nos olhos de quem as observa, que já não sabe mais identificar os papéis principais em sua família, porque em seus delírios terminais, todos são estranhos ou todos se tornaram a “mãe” ou o “pai”?...

“Tudo isso é tão angustiante. Honestamente não há nada que possa fazer. Vamos ver o que acontece quando ela voltar para cá. Vamos dar um jeito. Talvez eu contrate uma enfermeira, talvez eu me vire sozinho. Vamos ver. Já passamos por poucas e boas, sua mãe e eu. Tudo isso é novidade.”
Georges

Meu pai chegou ao um nível tão crítico antes de partir, que cheguei a pensar algo muito triste observando o seu fim: quem passa por tamanha angústia de um vazio mental e dores sem fim, estranhamente é “feliz”, por ser poupado em não ter noção do estado precário em que se encontra... Pensamentos assim são tão fortes, mas reais e repetidas vezes se fez presente em minha mente, assim como é provável que o mesmo se deu com outras pessoas que já passaram por algo semelhante no contato com um idoso em seus últimos dias de vida.

Mas, quando estamos de frente para a tela Amour só podemos reviver ou nos surpreender com tudo o que há nele pela forma que o filme foi construído. O método usado não mistifica a história, ele explora a simplicidade que é comum nos cotidianos, mas em certos casos, isso incomoda o público acostumado com segundos e não longos e ininterruptos minutos de pensamentos, ações, reflexões e olhares, que são incomuns na maioria dos filmes práticos, de belíssimas trilhas sonoras e com rasas demonstrações da realidade. Essa tecnologia abre mão das canções e explora somente o tempo e os sons reais, nos unindo às precariedades humanas encontradas na vida de Georges e Anne de tal forma, que sentimos o que está além de nossa epiderme. Nossa audição percebe a distância da fala entre um cômodo e outro, o barulho dos talheres e da água da torneira. Sentimos e ouvimos seus esforços físicos em guiar a cadeira de rodas e o erguer do corpo limitado de sua esposa... Tudo nos faz respirar o cansaço de ambos, ouvir os passos arrastados e trêmulos de quem já não sente firmeza em suas pernas, por conta de seus 80 anos. Podemos até sensivelmente compreender as feições de todos, tanto que me entristeci ao observar que já expus a mesma face sobrecarregada de mal estar, piedade e espanto encontrados no rosto do ex-aluno de Anne, ao descobrir sobre a escassez de saúde em que a sua admirável professora de música se encontrava.

"Filmes que são entretenimento dão respostas simples, mas acho que isso é, em última análise, mais cínico, já que nega ao espectador espaço para pensar. É dever da arte fazer perguntas, não fornecer respostas. E se você quer uma resposta mais clara, vou ter que recusar".
Michael Haneke

Foram exatamente esses impactos tão reais que me fizeram ser mais uma apreciadora das obras de Arte de Haneke, mesmo sabendo que seu dedo é posto em nossa ferida a cada filme lançado. Isso pode até ser visto como masoquismo, mas não compreendo dessa forma, porque a sua inspiração se conecta ao movimento de nossas vidas. Ainda assim me surpreendo em notar que ele não se incomoda em explorar essas bagagens humanas, apesar do negativismo de certas opiniões sobre seus trabalhos, aliás, suas ideias tem lhe rendido merecidamente milhares de premiações. Destaco somente alguns diante de tantos que ele tem sido privilegiado em receber: Melhor Diretor de Cannes (2005) por Caché, Oscar de Melhor filme Estrangeiro (2013) por Amour, Palma de Ouro (2012) por A fita Branca e Amour e o Prêmio do Cinema Europeu de Melhor Diretor por Caché (2005), A Fita Branca (2009) e Amour (2012) entre outros.

Ainda não conheço todas as obras de Haneke, mas compreender o amor pela sua ótica foi para mim uma das formas mais assustadora e bela que presenciei, por isso, acredito que seu principal objetivo como cineasta é nos levar a enxergar sem constrangimentos e medos os mistérios que ainda estão abafados em nossos esconderijos emocionais, e com certeza aguarda que nos tornemos pensadores, questionadores e não meramente telespectadores da vida e dos filmes.


Fonte de imagem: Google
Filmes de Michael Haneke
Amour (2012)
A Fita Branca (2009)
Caché (2005)
O Tempo do Lobo (2002)
A Professora de Piano (2001)
Código Desconhecido (2000)
O Castelo (1998)
Violência Gratuita (1997) (foi refilmado em inglês em 2007)
O Vídeo de Benny (1992)
71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1993)






17 comentários

  1. Amo esse filme e gosto muito do estilo do Haneke. Meu favorito dele é A Professora de Piano (com a Isabelle Huppert também no elenco) - que é de 2001 e não 2011 haha. Concordo que ele tira o espectador de sua zona de conforto, o provoca e o incomoda. Seus filmes são assim e com esse não seria diferente. Acho que na verdade esse é um dos longas mais sutis dele no aspecto roteiro e é bem emocionante, tanto por conta dos diálogos quanto pelo Georges que acaba tendo que tomar a difícil decisão, pois é triste ver a pessoa que você mais ama sofrendo.

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    1. olá, Matheus! obrigada! já corrigi. ;)

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  2. gostei das dicas!
    eu ando bastante cinéfila! kkk
    vou procurar conhecer a produção do diretor
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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    1. ser cinéfila é bom demais, Thaila rsrsrs...

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  3. Oi.

    Eu não conhecia este filme, ou se já vi em algum lugar, não me recordo agora. Achei ele bem interessante, adorei ler sobre ele aqui e vou procurar mais informações sobre ele e onde posso assisti-lo.

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    1. olá LC! recomendo não só Amour, mas que você possa procurar outros títulos desse cineasta. se você tem costume de baixar para assistir recomendo o site: http://filmescult.com.br/
      obrigada e um beijo!

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  4. Não havia ouvido falar nessa obra ainda e ameiii a dica. Já está anotado.
    Acompanhei a doença degenerativa da minha avó e foi um período bem difícil e que gerou muitas reflexões tbm. Sinto muito pela perda do seu pai, a gente nunca está preparado para algo dessa magnitude.
    Bjsss

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    1. olá, Luana!...se em sua história você já passou por algo semelhante, com certeza irá relembrar cada fato e as reflexões que vivenciou. muitas vezes é necessário trazer para o momento atual memórias de momentos que abriram um leque de crescimento em nossa história.
      muito obrigada e um beijo!!!

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  5. Adorei as dicas! Apesar de eu nao ver quase filme nenhum, vou seguir seus conselhos e procurar saber mais sobre suas indicações!
    Adorei o blog
    Bjs

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    1. obrigada, PI! que Amour lhe abra as portas para esse mundo cinematográfico... por ele aprendemos, nos observamos e crescemos. até mais! bjos!

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  6. Já vi falar do filme, mas, infelizmente, não o assisti. Gosto quando a trama gira em torno de diálogos bem construídos. Não precisa ser uma produção megalomaníaca, mas precisa ser profunda, como diz Kafka, um soco no crânio. Parabéns por seu texto, formidável! Leitura prazerosa para mim, espero ler mais análises sua <3

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    1. olá, Lilian! que pensamento formidável é o seu! pois são de socos no crânio que eu procuro sempre e me satisfaz!!! nada contra, cada um tem a sua praia, mas de fato, grandes produções só enchem os olhos, eu prefiro ter a minha alma preenchida.
      muito obrigada por seu carinho. hoje tem uma análise da obra de Frida... dê um pulinho lá! =) http://www.leiturasdapaty.com.br/2017/04/a-coluna-partida-de-frida-kahlo.html

      beijos!!!!! <3 )))

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  7. Pretendo assistir o filme e creio que irei gostar bastante. Infelizmente não assistir nada do diretor ainda, mas isso vai mudar em breve.

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    1. espero que goste realmente... na minha opinião, não tem como não apreciar. boa sessão de cinema!

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  8. Nossa que filme tocante! Já vi e realmente é uma lição de vida, pelo menos para mim ^^
    Espero que outras pessoas possam ter a mesma sensação que eu, ao assistir essa obra ^^

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  9. Olá!
    O filme parece ser bem forte e promete mexer com o espectador do começo ao fim. Confesso que não conhecia o diretor e nem os filmes dele. Mas depois das suas indicações fiquei interessada e vou tentar ver um dos filmes dele.
    Amei as sua crítica.
    Beijinhos!

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