03 maio, 2017

Entre o escritor e o leitor há um encontro de almas

Fonte de imagem: Google
“Nasci escritora, nasci leitora…Já na infância, tinha apetite pelas palavras, escritas ou faladas. Olhava os escritores de forma agradecida. Aqueles seres, responsáveis pelos livros de lombadas atraentes e capas coloridas, forravam meu imaginário com feno e sonhos. Livros que me prorrogavam a existência e impediam que caísse nas malhas do banal.”
Nélida PiñonAprendiz de Homero

Através dos livros, das crônicas, das reflexões em sites e diversas outras publicações, comecei desde muito cedo a perceber pesos e levezas nascidos em mim através de cada texto que me deleitava. Na leveza, os textos me mostravam, por exemplo, que as chuvas são lindas e transmitem alegria, assim como um dia de sol…… pesavam quando me despertavam para os descasos da vida que infelizmente, às vezes, fugimos sem tentar resolver. Nas utopias, no surreal e também nas verdades rasgadas, os textos sempre me trazem uma visão transformadora e surpreendente. A cada leitura tenho respostas inesperadas e muito bem recebidas nos pontos necessários de cada momento que passo. É bem verdade que em uma mente leitora há inquietações. Isso acontece porque sempre buscaremos na leitura, algo que consiga mudar nossos pensamentos e as nossas perspectivas da vida, que em alguns momentos não nos surpreende mais ou não nos transmite forças para prosseguirmos. Eu pelo menos estou sempre lutando para desplugar meu conector das coisas, daquilo que não me conforta, nem acrescenta. Deleto arquivos desnecessários que sobrecarregam a minha memória com conflitos vividos no contato comigo mesma e com os outros.

Minha visão de leitora apaixonada consegue perceber quando aquele “tique mágico” surge através de certas palavras que me libertam de confusões e me fazem descobrir a existência de alguém que parece já me conhecer e que consegue se fazer tão presente mesmo estando, na maioria das vezes, bem distante de mim. Sem que possa imaginar, me aponta um caminho e um horizonte de ideias e divagações, me fazendo compreender com maior clareza certas coisas, antes apagadas ou confusas em minha mente. Através de uma coluna em um blog ou uma página no facebook com vários temas escritos com pontos muitas vezes ainda inatingíveis de meu raciocínio, me esclarecem, me orientam e me alertam. De fato não há nada mais surpreendente e encantador quando alguém se descobre escritor e com um empenho totalmente fora dos padrões do discernimento, começa a doar vida, esperança, identidade e história há diversos livros ou textos. E esse mesmo alguém talvez nem imagine que tem poder de entrar na profundidade dos nossos segredos e sem nenhuma intenção, interromper nossas confusões, trazer respostas que precisamos ouvir, explorar quem somos, nos revelar e nos ajudar a montar o grande quebra-cabeça que temos dentro das nossas emoções e que precisam se encaixar perfeitamente para que os ciclos de incertezas se transformem em novas descobertas, em nova vida. Os escritores já nos cativam desde a nossa infância, ao chamar nossa atenção para o colorido da capa de um livro e personagens deslumbrantes… como esquecer o pedido cheio de choramingo de uma criança, querendo que algum adulto decifrasse o que havia de oculto em todas aquelas letras? Hoje adultos, a aproximação com esse universo é a mesma, pois ainda precisamos ser alimentados de fantasia, emoção, conhecimento, cultura e imaginação a cada história que ávidos exploramos.

O diálogo que temos com esses escritores, sem o som das suas vozes se torna muito mais forte e íntimo do que se fosse realmente pessoal. Buscamos nesse silencioso relacionamento um ponto de luz, daí começamos a salvar links em nossos favoritos, a guardar os seus nomes em nossa memória e o repetimos diariamente como um mantra, através de conversas contagiantes com outros leitores. Pedimos ou “caçamos” seus endereços eletrônicos porque queremos mais, queremos iniciar o que nosso coração anseia, uma confissão feita em trocas de e-mails e mensagens instantâneas, relatando a esses seres os efeitos que suas inspirações nos causam. Precisamos que aquele encontro diário nas colunas e livros se prolongue em nosso dia a dia. Em uma euforia interna começamos então a compartilhar suas ideias com familiares, amigos próximos, como se estivéssemos apresentando um novo amigo.

Esta relação entre leitor e escritor, sobrevive de um diálogo silencioso, mas não é um monólogo, como muitos podem pensar. O silêncio existe para que a tênue linha de raciocínio entre os interlocutores anônimos nunca seja cortada pelos barulhos da vida moderna, que podem quebrar o desenvolvimento de nosso intelecto íntimo com eles. Nos envolvemos tanto, que também não nos importamos se alguns já não estão entre nós. Essa aliança é inquebrável, e por isso a vida se encarregará de renascê-los, porque sempre que um livro se abre, aquela pessoa volta ao nosso encontro, se senta ao nosso lado, nos abraça através de suas falas, troca experiências e nos faz reviver afinidades.


Queremos ficar eternamente unidos ao cotidiano desses escritores que são ferramentas de mudanças, causadores de grandes perturbações polêmicas que sempre conseguem somar e polir toda a nossa carcaça intelectual, libertando nossos sentidos e remexendo poros e feridas do inconsciente, até que lágrimas escorram a cada compreensão e surpresa diante de uma leitura. Passa ser impossível nos desligarmos de um texto ou de um livro sem sentir essas ou muitas outras reações provocadas por esta gente… Ah essa gente que talvez não se dê conta do turbilhão que sempre nos causa… ou então, em seus momentos de pura concentração diante das palavras, reconhece com um leve sorriso nos lábios quantas vidas poderão ser arrebatadas de suas mesmices ao se deparar com suas fórmulas de reaprender a viver.

E eles não são nossos, são de todos aqueles que os encontram ou os buscam convidando-os a fazerem parte de suas vidas, desejando vínculos inquebráveis, marcados como uma tatuagem em nossa retina pelo prazer de lê-los diariamente. Pessoas que descobriram o segredo de escrever despertando emoções guardadas, libertando-as para que se alimentem de memórias e suas diferentes interpretações. Nós recebemos o que é dito sem censura, em um corpo de texto nu, disseminado através de lábios invisíveis e uma epidemia de evoluções sem cessar. Cada um deles é maravilhosamente único. Os escritores admiráveis vivem dentro de um vasto mundo de palavras que nascem em cada toque com um som de seus dedos no teclado em ininterrupta formação de opiniões e desabafos enriquecedores… Buscamos esse alimento em cada cheiro de livro físico, ansiosamente folheando, devorando e repetindo rapidamente parágrafos que nos assustam ou nos transbordam de curiosidade a cada virar de página. Prendemos o ar em nosso peito… e em seguida voltamos a respirar normalmente depois da partida rápida de uma adrenalina embriagante encontrada nas entrelinhas dos esconderijos dos textos… Eis um pouco do tudo que as palavras nascidas na solidão de um escritor provocam em nós a cada visita à estante das emoções.

Desde os meus 10 anos tenho me relacionado assim, silenciosamente com esses escritores, não citarei todos, deixarei escrito o nome de alguns que tocam meus ombros, acariciam minha cabeça ou me ajudam a evoluir a cada dia, me inspirando na arte de escrever, são eles: Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Haruki Murakami, Josten Gaarder, Carlos Ruiz Zafón, Martha Medeiros, Erick Morais, Leandro Karnal, Fernando Sabino entre outros… e com certeza inúmeros escultores mentais que ainda conhecerei em muitas livrarias e sites ou das dicas que sempre recebo. E assim, a história se repete nos encontros com seus dons, com suas missões em textos como bandeiras de sua ousadia, que vão lapidando as nossas fantasias, as loucuras e as simplicidades nas visões libertadoras sobre cada página que somos nós.

“É impressionante a força com a qual escreve. Nos faz sentir de perto cada ato.”Verusca Fraca
Hoje também começo a me ver como uma escritora, que também vive cada sensação que já foi citada, porém com privilégio continuo ocupando o lugar de leitora, que prossegue aprendendo e querendo muitos livros em minha estante e textos reflexivos salvos em minhas notas no smartphone, porque preciso desse alimento, porque não quero deixar de contar com esse cantinho especial onde conheço e encontro pessoas que me evolui… Principalmente porque agora também participo da mesma chamada que cada um deles vive e sendo assim, quero entrar nas inúmeras histórias que me são apresentadas. Provocar reflexões em todo aquele que tem buscado me conhecer aos poucos dentro dos textos. Quero continuar caminhando, ou melhor, dizendo, “tocando” minha cadeira de rodas e também as pessoas com as palavras deixadas pelos rastros de minhas inspirações, que falam das verdades que creio, das dores que me sufocam, do derramar irritado de minhas observações, dos espinhos que também já conheci e das luzes inéditas que nasceram através de algumas experiências, todas essas questões em uníssono, aguardam a oportunidade de conhecer as vidas que ainda terei o prazer de encontrar depois de cada leitura. Que não falte tempo, folhas virtuais, desejo e inspirações para que esses encontros sejam sempre possíveis. Que eu prossiga andando lado a lado, no passo de cada um que tem me acompanhado, porém, jamais deixando de desfrutar cada vez mais do contato com meus mestres autores, que invisivelmente me moldaram, desconstruíram e reconstruíram meu mundo, pondo por terra as muralhas do medo em abrir o coração e permitir que limitações naturais fossem expostas. Assim, continuo sonhando e vivendo vários processos de explorar minhas terras mentais e não deixar calar a voz que tem vida própria e fala mais alto dentro de mim.






Este artigo, de minha autoria, foi publicado originalmente no blog Genialmente Louco.



4 comentários

  1. a gente cria essa relação de amizade, de cumplicidade mesmo com autor, eita delicia!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Muito bacana essa relação de amizade que se cria. Um apoia o outro e um existe para o outro.

    Muito bacana!

    Bjos

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    Respostas
    1. esta aliança é eterna! obrigada, Luisa! beijos!

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