08 julho, 2017

Fences: As nossas Cercas Emocionais


A vida que se encontra estagnada dentro de um limite mental, visto como uma proteção para novas decepções, na verdade se torna uma cerca aprisionando os traumas em nós, porém, não precisamos prosseguir permitindo que essas dores continuem a nos atormentar para sempre… As sequelas que se formaram precisam ser removidas todas as manhãs quando somos despertados de um sono profundo para experimentar uma nova oportunidade de se permitir conhecer o que estará do outro lado de nossa porta aguardando um momento certo em nosso agora para iniciar mudanças necessárias nesse movimento de peregrinação constante que é a vida…

Essas reflexões têm formado um imenso labirinto de emoções dentro de minhas memórias desde o momento em que assisti Fences (2017). Filme baseado na peça escrita por August Wilson, que assina o roteiro e tem Denzel Washington na direção e atuando como o protagonista. Com um enorme sucesso a peça foi encenada em diversos teatros, tendo a presença de Denzel assumindo o mesmo personagem que lhe rendeu o prêmio Tony em 2010. A versão cinematográfica também tem sido aplaudida e privilegiada com os seguintes prêmios: Globo de Ouro, Critics’ Choice Movie Awards, Washington D.C. Area Film Critics Association e Screen Actors Guild para Viola Davis. Screen Actors Guild para Denzel Washington.

O filme se passa na década de 50 nos Estados Unidos e nos apresenta a conturbada história de Troy Maxson, pai de Lyons, do primeiro casamento, e Cory Maxson, filho de Rose, sua segunda esposa. Ao lado de seu único amigo, Bono, ele divide o trabalho de lixeiro em seu bairro. Em sua vida, há também as raras visitas de seu irmão Gabriel, ex-combatente de guerra, com dificuldades mentais adquiridas nesse ofício.

Na primeira cena que expõe a personalidade de Troy em um diálogo tenso em família diante do amigo Bono, passamos a conhecer o perfil desse homem que é preenchido de amarguras antigas, mas não adormecidas em seu coração, porém ele insiste em tentar camuflar com várias máscaras de gargalhadas fáceis, cantorias inventadas, bebedeiras e deboches com sua própria história. Esses sentimentos ruins que impregnaram Troy vieram de um passado de sofrimentos no relacionamento com o pai, a experiência em um presídio e o preconceito racial que o impediu de realizar o sonho de ser um jogador profissional de basebol. Em uma das muitas longas cenas que mais se parece com um monólogo se repetindo diversas vezes no filme, ele relata com orgulho uma história que inventou sobre ter lutado com a morte e a vencido, quando precisou ficar hospitalizado. Ao finalizar a fantasia, afirma que pôs a morte para correr depois de alguns dias lutando fisicamente contra ela. Sendo assim, ele tenta nos passar que ao vencer a morte havia adquirido uma imensa alegria pela nova chance em viver e também o domínio em afastá-la de seu destino, mas na verdade durante todo o filme isso não condiz com o que ele tenta nos passar, porque pude descobrir um ser humano preso em angústias do passado, preocupações torturantes e dificuldades em se relacionar com a esposa e os seus filhos. Isso confirma que foi dada à morte a permissão de frustrar sua existência, paralisando seus sonhos e o tornando um morto em vida.

Dentro do filme Fences há uma abundante simplicidade que podemos facilmente perceber pelos poucos cenários e pelo pequeno elenco, ou seja, de fato a peça teatral foi transportada para o cinema. O diretor e ator Denzel Washington, talvez, tenha preferido investir somente nos assuntos sobre os relacionamentos familiares que tanto mexem em nosso emocional e chamam nossa atenção por justamente nos vermos envolvidos sempre neles, nos fazendo refletir e até tentar mudar o que é possível ou aprender a lidar conforme nossa conduta diante de nossos enredos íntimos e reais. Por isso a força desse filme está ligada aos diálogos e desabafos solitários que me conectou as vozes dos personagens que rasgaram seus sentimentos mais profundos em quase 140 minutos de filme. A sensação que tive era de estar diante de uma orquestra expondo pelas vibrações vocais mazelas nada musicais de todas as almas ao redor de Troy, que é o maestro. Em seu auxílio, ele tem a sua batuta, Rose Maxson, vivida pela maravilhosa Viola Davis, sempre com sua regência promovendo e sustentando o renascimento da união, do amor, do respeito, apaziguando os momentos espinhosos do esposo que fere com suas mágoas os que se encontram presos junto a ele dentro de cercas harmoniosas de ressentimentos, traições, brigas e desafetos.

Enfim, Troy Maxson, é um desses muitos exemplos de vida que existe e está perto ou quem sabe, dentro de nós, errando diversas vezes ao se alimentar das decepções, se agarrando nos limites impostos pelas cercas, sejam elas de madeira, de arames farpados, humanas ou nós mesmos, que atravessamos os anos regando a vida com reclamações sem fim em divagações sobre as derrotas passadas, não percebendo que estamos afastando o privilégio de ser aceito e amado pelas pessoas que só acrescentam em nossa história. Deixamos de viver esses benefícios quando enxergamos facilmente as portas que foram ou estão fechadas, mas, infelizmente somos indiferentes às janelas abertas que sempre estão mostrando o céu azul renascendo todas as manhãs, após as noites, as chuvas contínuas ou as fortes tempestades. Mas, sempre haverá um “mas”, assim como as manhãs que se repetem constantemente, por isso então, que não percamos uma dessas muitas oportunidades para nos livrar, ainda que lentamente, dos limites que nós escolhemos imobilizar entre nós.


Este artigo, de minha autoria, foi publicado originalmente no site Genialmente Louco.



Um comentário

  1. não conhecia o trabalho de Denzel como diretor, mas o acho um excelente ator e a premissa da história é interessante
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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