26 março, 2018

Resenha Canção de Ninar

"...Se move nas coxias, discreta e poderosa. É ela quem segura os fios transparentes sem os quais a magia não pode acontecer."
Autora: Leila Slimani
Editora: Tusquets Editores
Páginas: 192


Somos partículas de mistérios... Só pelo fato de sermos individualmente criados, indica que na bagagem que recebemos para aqui viver há um turbilhão de diferenças surpreendentes, ainda que seja assustadora também. Nem todos expõem como são e seus pensamentos não serão encontrados em um livro de suspense, por isso, é preciso ter cuidado.
"Essa vida de casulo, longe do mundo e dos outros, os protegia de tudo."
Myriam e Paul casaram-se jovens, mas, não abandonaram suas ambições profissionais. Porém, instalados no belo prédio da Rue d’Hauteville, em um pequeno apartamento, a vida mostra-se diferente. A ex-advogada agora é do lar, zelando pela casa e filhos, enquanto Paul por conta do trabalho passa pouco tempo com eles.
"Disse a si mesma que aquela felicidade simples, muda, prisional, não era suficiente para consolá-la."
O cotidiano repetitivo e básico, tornou Myriam apática e insatisfeita a cada dia, e após uma proposta de trabalho decide retomar à sua profissão, mas, antes ambos iniciam um processo longo de entrevistas para contratar alguém que se ajuste em suas rotinas e preocupações com as crianças. 
"Olham para ela, mas não a veem. É uma presença íntima, mas jamais familiar."
E assim os Massé conhecem a excepcional babá Louise. Seu profissionalismo é escrupuloso! Doando-se totalmente para as necessidades das crianças, e ainda realiza o que não lhe cabe, transformando o exíguo apartamento em um ambiente agradável, organizado, além de cuidar das roupas e cozinhar sempre maravilhosas comidas!
"Impossível, eles pensam, ficar sem ela. Reagem como crianças mimadas, como gatos domésticos."
Diante de tanto carisma, amabilidade e entrosamento mútuo, o que haveria na trama aos olhos visíveis que fizesse o livro ser de suspense/mistério?

Fui compreender a trama quando devorei avidamente as narrativas de Leila Sliman, tecidas em terceira pessoa, com poucos diálogos, capítulos fluidos, porém bem minuciosos, me enredando por vírgulas e apontamentos necessários sobre os envolvidos. Ela dissecou sem pressa, sem enfado e de forma sensível cada movimento, postura, ações e pensamentos, expondo visceralmente como são.

Louise é um sincronismo excelente de mistério, carência, precariedades, fragilidades e delicadezas. Mesmo quieta, sua grandeza é perceptível!
Myriam e Paul se misturam entre sensíveis/humanizados e egoístas/indiferentes. Com tais características tornou-se impossível aceitá-los como ficcionais, então, me afoguei em raiva, pena, pânico e medo de chegar às últimas páginas e encarar a verdade repleta de ganância, preconceito, hipocrisia e dependência abusiva presente entre eles. 

Com genialidade a autora expõe uma crítica contemporânea densa e sem máscaras, podendo causar constrangimentos, incômodos e taquicardia. É aquele tipo de obra com exposição total de fatos desconfortantes! Tanto que fiquei totalmente aturdida e respirando com dificuldade do início até à destruidora iminência. Enfim, são 192 páginas, mas não significa que deve ser lida rapidamente, pois não é rasa e vasculha muito o raciocínio e as emoções.

Compartilho este lançamento mega inteligente que deu a marroquina Leila Slimani o Goncourt em 2016, prestigiado prêmio literário francês, este galardoou aclamados escritores, tais como, Simone de Beauvoir.
Leila Slimani é autora confirmada na FLIP 2018, evento literário que acontece de 25 a 29 de julho, em Paraty.

Boa leitura!


Avaliação:


A Autora



É uma escritora e jornalista franco-marroquina. Em 2016, foi premiada com o Prêmio Goncourt por seu romance Chanson douce, publicado no Brasil como Canção de Ninar. Leïla Slimani nasceu em Rabat, no Marrocos, em 1981, e vive desde os 17 anos em Paris. Atuou como jornalista e publicou o primeiro romance, Dansle Jardin de l’ogre, em 2014. O livro fez dela a primeira mulher a ganhar o prêmio La Mamounia, atribuído a escritores marroquinos em língua francesa. Foi a primeira vez também que uma mulher ganhou um premio literário no mundo árabe-muçulmano.













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